quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Tributo ao Trema

Muitos defensores e puristas bradaram aos quatro ventos e em todos meios tentando salvar o trema da degola, mas de nada valeu, 2009 vem ai e com ele a saudade desse sinal garboso que contribuía na pompa do nosso vernáculo. Os mais românticos e saudosistas adoradores da última flor do Lácio choram como se chorassem a partida de um ente próximo, enquanto outros mais arredios já anunciaram em seus msn´s e comunidades de Orkut: “Uso trema até morrer”. Por aqui, esse errante arranhador de vocábulos, se contenta em fazer um simplório discurso funério, antes quen esse sinal míngüe de uma vez por todas, como conseqüência do enxagüe da nossa língua mãe e toda sua grandiloqüência lingüística, peculiar a esse antiqüíssimo idioma, vilipendiado por um bando de eqüinos inconseqüentes e deliqüentes, que deram um qüinqüênio para o trema sumir do mapa. Ah, se me deixassem argüí-los, eu os perguntaria o porquê dessa iniqüidade, perdoem o descontrole e obliqüidade do meu discurso, mas entendam a minha dor ao ver um amigo que considero como consangüíneo meu, se desmilingüir dessa maneira. Terei de recorrer aos escritos antigos para matar as saudades daqueles dois pontos eqüidistantes que enfeitavam os U´s tantos nas terras brasílicas quanto no lado bangüê, não sei se vou agüentar ver o Anhangüera sem os dois pontinhos, e como se sentirão os pingüins, sem o trema no seu cotidiano semi-aqüífero. Choro eu, afável companheiro, junto com nosso idioma ferido e ensagüentado diante dessa regra inexeqüível, fruto da delação de um desses alcagüetes que não se contentam em deixar quieto o que ai está. Eles que não inventem em mexer com a crase!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Pomba e o Crime

Pois é, distintos e fiéis leitores, esse mundo de meu Deus não pára de enviar matérias para nosso Blog, mesmo que eu dispusesse de uma redação entupida de menestréis anarquistas, conseguiríamos dar conta das mugangas que aparecem aos montes por ai.

De passagem por alguma dessas comunidades carentes, onde o sol da justiça social não bate, percebi uma coisa que me pareceu tocante de cara e somente 3 ruas depois me deixou com a pulga atrás da orelha: Todas as casas da comunidade traziam, à vista de quem passasse, a escultura de uma pomba de gesso. Perguntei discretamente a meu “guia” e ele me esclareceu falando entre os dentes que aquilo se tratava do símbolo de adesão ao comando do “dono da ilha”. Um espécie de mini-caudilho, misturado com chefe de milícia que tomava conta do tráfico no povoado.

É isso mesmo leitor, temos uma comunidade na cidade que usa a pomba (aquela branca da paz) como símbolo do crime organizado. Eu já vi caveira, metralhadora, até o personagem Taz já foi símbolo de facção criminosa, mas uma pomba! Pra mim é a ironia levada ao extremo. Eles estão é debochando de quem vai pra praia de Boa Viagem, vestido de branco, com Nando Cordel pedir paz.

A Facção da Pomba tem tudo: infra-estrutura moderna, plano de incentivo a boa convivência entre os funcionários, treinamento e pasmem ai, tem até plano empresarial em empresa de telefonia celular. O risco lá é que a rescisão contratual ou qualquer pendência com a chefia é pago com a vida. Ah! Mas vá lá, a vida não ta valendo essas coisas todas nos dias de hoje, tem potranca da Facção da Pomba que disse estar achando até bom morrer, porque só assim se livra da dívida do cartão da C&A.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O que fizeram com as tragédias?

Já foi-se o tempo em que as tragédias tomavam de nós um simples muxoxo de espanto ao folhear as páginas dos jornais que narravam degolamentos, envenenamentos de famílias inteiras, assassinatos cruéis de enteados infantes. Depois de ler aquelas atrocidades, que sempre aconteciam longe de nosso lar, seguíamos para as nossas obrigações diárias e no fim do dia sentávamos ao sofá a espera de nos entretermos com as histórias das telenovelas. Sim, por que antes lugar de drama era na novela, não no Jornal Nacional.

Hoje a notícia pura e simples não basta tem que vir acompanhada das firulas da ficção. Uma adolescente na janela de um apartamento surge com uma expressão que indica o apuro ao qual está submetida, clama por socorro. De fora câmeras ligadas, repórteres a postos para registrar cada passo daquela trama medonha envolvendo personagens da vida real. Um seqüestrador cruel, dominado por um ciúme doentio faz refém sua ex-namorada e uma amiga. Um vilão exemplar de folhetim, vale até um entrevista por telefone com o algoz, suas palavras rederam um ibope melhor do que qualquer novela da Globo, pouco importa para quem a arma dele aponta naquela hora. Vamos tentar aproveitar ao máximo o depoimento daquele psicopata.

Os folhetins da vida real parecem ser mais atrativos. Os recentes índices do ibope apontam uma queda nos números das novelas e uma ascensão da audiência dos telejornais. Se fazer jornalismo é mexer com as emoções e não com a verdade? Se o que eles devem fazer é narrar aquela tragédia e não lutar para que ela não ocorra? Será que é assim? Qual será a próxima novela que acompanharemos nos telejornais? Quem será a vítima? Pode ser eu ou você que acompanhamos hoje espremidos de medo no sofá o desenrolar dessas tramas sórdidas, podemos ser eu e você as vítimas do próximo folhetim.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Não me pergunte por que

Sempre adorei contar histórias, isso não significa que eu seja bom no ofício. Faço porque gosto, assim como tem gente que gosta de fazer tricô. Faz e pronto, não espera que venha alguém atestar suas habilidades.

Hoje me deparei com um caderninho que eu usava para rabiscar minhas histórias, alguns pensavam ser um diário, mas bastava abrir a primeira página para constatar que aquilo era muito mais do que contar o que acontecia na minha vida, porque desde cedo eu sabia que a vida real não valia a pena, bom mesmo era a ficção.

No citado caderno havia apenas uma história, por acaso, incompleta e desconexa, talvez pelo seu título genérico demais. A história se chamava HISTÓRIA, assim mesmo e ainda ilustrada com o desenho de um avião em pleno vôo, não me pergunte por que?

A história começa com uma almofada que se rebelava, eu não expliquei porque, mas a almofada estava revoltada. A trama da almofada segue sem que eu mesmo que escrevi tenha entendido coisa alguma. Lá pras tantas, a almofada se suicida destroçando-se toda. A dona da almofada chora tanto que enche uma jarra. Já vi na ficção personagens chorarem rios de lágrimas, mas jarras nunca. Realismo fantástico na veia!

O resto da história nem interessa a vocês, nem a mim, porque a trama caminha por um enredo frágil e inverossímel até pra um surrealista drogado. O fato é que ainda hoje não vivo sem inventar história e foi muito bom encontrar aquele menino solitário que inventava seu mundo numa folha de papel e vivia nele com medo do mundo do portão pra fora. Porque no mundo dele uma almofada não ficava parada e lesa num sofá a mercê quem chegue e a esmague, lá até uma almofada tem direito a se rebelar. Não me pergunte por que.